MINHA HISTÓRIA

Angélica Bittencourt


Sou do interior de São Sebastião do Passé e cheguei em Camaçari por volta dos 12 anos de idade para cuidar de três primos. Alguns anos depois, cursei o magistério em um turno e trabalhava no outro em uma escola particular, como auxiliar de limpeza.

Ao sair da escola fui remunerada com seis cadeiras e três mesas usadas, com isto montei meu negócio de reforço escolar, o qual dei o nome de "Menino Jesus". Fiz um voto com Deus de que cada vez que o reforço crescesse eu iria beneficiar a comunidade e foi assim que nasceu a Escola "Menino Jesus", hoje o CEB - Centro Educacional Bittencourt, que cresceu e continua crescendo.

Trabalhei e continuo trabalhando muito! Carreguei sacos de cimento para a construção da escola, fazia a limpeza, cuidava da secretaria, ministrava aulas, fazia transporte, cozinhava...

Vivi muitos anos em sala de aula e ao mesmo tempo exercendo múltiplas tarefas, pois tinha o objetivo de crescer na vida. Enfrentei e ainda enfrento o preconceito racial, mas isso não me abala! Muito pelo contrário, é mais um combustível para minha vontade de vencer.

Percebo o ar de surpresa de muitas pessoas quando me conhecem pessoalmente e se deparam com uma mulher negra, Inclusive fornecedores já deixaram nítido que não esperavam ver uma negra à frente de uma escola com o sucesso do CEB. É triste, mas essa ainda é a  realidade do nosso país.

Minha história é marcada por muitos desafios e aprendizados. Tive um filho prematuro de 5 meses e 20 dias, o José, que teve paradas cardíacas e infecção generalizada. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida! Houve dias que eu não podia almoçar pois não teria o dinheiro para retornar para casa se comesse! Mas sempre mantive a minha fé em Deus. Sei que tudo que passei foi para a melhora como pessoa e para que eu compreendesse ainda mais a importância de olhar para as dificuldades dos outros com o objetivo de ajudar, servir, acolher.

Hoje através do CEB, contribuo diariamente para a sociedade, com cestas básicas, doações de roupas, alimentos, produtos de higiene...

Acreditava há algum tempo, que meus projetos educacionais bastavam para ajudar o município e, pensando assim, criei o EducaCEB, um programa de bolsas de estudo onde insiro gratuitamente cinco alunos de cada turma da rede pública do município na nossa escola, pois infelizmente, a educação pública tem sido sucateada e vivenciamos crianças chegando ao Ensino Fundamental II, sem serem alfabetizadas, uma realidade problemática deflagrada em todo o país.

Infelizmente, as escolas públicas, em sua maioria, são mal gerenciadas. Há falha na fiscalização e não há um acompanhamento eficaz na qualidade do ensino. Falta segurança, merenda, estrutura física, material, professor e, quando se tem, estão desmotivados. O professor é a base de tudo, mas não existe o devido respeito pela profissão. Com isso, ele é obrigado a trabalhar três turnos. Como exigir qualidade? Sou formada em Pedagogia com Supervisão em Empresas e Administração, percebo diariamente que é necessário ter interesse de mudar, administrar com firmeza e competência.

Educação é a mola propulsora da sociedade e, inclusive, da política. Todos nós precisamos nos educar, votar com responsabilidade e não por troca de favorecimentos. Os políticos precisam se educar a de fato trabalhar pelo povo e gerir para o povo. O que falta é interesse de mudar, de deixar os interesses pessoais de lado e fazer a política com a devida seriedade. Sem educação nada mudará!

Mas com tudo que passei com meu filho e com uma amiga em um hospital, entendi que sozinha eu não consigo mudar a realidade do meu povo. Não basta apenas investir para melhorar a educação: é preciso investir na saúde, na segurança e nos demais setores da administração pública.

Como cidadã, me empenho diariamente para fazer minha parte para transformar vidas. Entretanto, hoje eu sei que para alcançar uma mudança significativa, somente por meio da política, mas da política séria e comprometida, será possível fazer um trabalho sustentável de transformação social. Se esse for o meu chamado, e se for da vontade de Deus, por que não? Será mais um desafio.